A Visita de Lula a Trump e a Reinvenção Pragmática das Relações Brasil-EUA
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Por Mariana Medina
No cenário imprevisível das relações internacionais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pisou no tapete vermelho da Ala Sul da Casa Branca em 7 de maio de 2026 para um encontro que muitos consideravam improvável. A reunião de trabalho, a portas fechadas, durou quase três horas e serviu para desmontar o mito de um confronto irreconciliável entre o líder progressista brasileiro e o republicano nacionalista Donald Trump.

O contexto era de tensões comerciais, divergências ideológicas e uma guerra no Oriente Médio. O encontro havia sido adiado várias vezes desde março e foi finalmente destravado por um canal incomum: uma ligação intermediada pelo empresário Joesley Batista, da JBS, que permitiu a Lula falar diretamente com Trump e agendar a visita. O gesto revelou a natureza singular da diplomacia na era Trump, na qual contatos pessoais e empresariais muitas vezes substituíram as vias tradicionais do Itamaraty e do Departamento de Estado. Para Lula, tratava-se de redefinir as bases de um relacionamento desgastado por tarifas punitivas e tensões políticas; para Trump, a oportunidade de demonstrar que seu estilo de negociação podia produzir resultados também com líderes de esquerda, desde que houvesse disposição para o diálogo pragmático.
Para compreender o significado da visita, é necessário recuar a fevereiro de 2023, quando Lula visitou a Casa Branca pela primeira vez em seu terceiro mandato, como convidado do presidente Joe Biden. O contexto era radicalmente distinto: ambos haviam derrotado nas urnas adversários que flertavam com o extremismo de direita, Jair Bolsonaro no Brasil e o próprio Trump nos EUA, e enfrentado ataques violentos contra suas instituições democráticas, o 8 de janeiro em Brasília e o 6 de janeiro em Washington. A experiência compartilhada moldou o encontro, centrado na defesa da democracia e no combate às mudanças climáticas. Biden declarou “apoio incondicional” à democracia brasileira e anunciou uma contribuição de 500 milhões de dólares ao Fundo Amazônia, ainda que o valor efetivamente repassado tenha ficado muito aquém do prometido. Discutiram também a invasão russa da Ucrânia, a crise no Haiti e a migração regional. Apesar do simbolismo da convergência democrática, os limites ficaram evidentes nas divergências sobre a guerra na Ucrânia e nas dificuldades de coordenar uma agenda comercial comum.
A eleição de Trump em novembro de 2024 e sua posse em janeiro de 2025 transformaram radicalmente o cenário. Nos primeiros meses, Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, acusando o país de promover uma “caça às bruxas” contra Bolsonaro, já condenado pela Justiça brasileira por tentativa de subversão democrática. Embora tenha recuado parcialmente, reduzindo tarifas sobre carne bovina e café devido à pressão inflacionária doméstica, o gesto deixou marcas profundas. A ofensiva comercial foi além: o governo Trump abriu uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA contra o Brasil, questionando desde o sistema de pagamentos instantâneos Pix até as tarifas sobre etanol, o desmatamento e a proteção à propriedade intelectual. Para o governo brasileiro, tratava-se de construir um caso, “mesmo que infundado, para justificar a adoção posterior de tarifas”. A tensão atingiu o ápice quando Trump enviou uma carta a Lula exigindo a anulação das acusações contra Bolsonaro, uma interferência direta nos assuntos judiciais brasileiros interpretada como afronta à soberania nacional.
A possibilidade de um novo capítulo começou a ser gestada ainda em 2025. Durante a Cúpula da ASEAN na Malásia, em outubro, Trump e Lula tiveram um encontro bilateral breve, mas suficiente para que o americano mencionasse publicamente a “excelente química” entre os dois, em parte reconhecendo o potencial das vastas reservas brasileiras de minerais críticos. Dias depois, na Assembleia Geral da ONU em Nova York, Trump fez comentários elogiosos a Lula, indicando disposição para separar divergências políticas de interesses estratégicos comuns.
A visita foi envolta em expectativas e simbolismos. Lula entrou pela Ala Sul da Casa Branca, onde um tapete vermelho foi estendido especialmente para recebê-lo, e Trump desceu a escadaria para cumprimentá-lo pessoalmente, gesto interpretado como sinal de deferência e boa relação pessoal, apesar das profundas diferenças ideológicas.
A reunião, originalmente prevista para incluir uma coletiva de imprensa conjunta no Salão Oval, estendeu-se por quase três horas, levando ao cancelamento da aparição pública. Trump limitou-se a publicar em suas redes sociais que o encontro fora “muito produtivo” e que Lula era “um presidente muito dinâmico”. Lula, por sua vez, concedeu entrevista na Embaixada do Brasil em Washington, detalhando os temas abordados.
O comércio bilateral dominou as conversas. Lula defendeu vigorosamente a posição brasileira, argumentando que os EUA mantinham superávit comercial consistente com o Brasil e que a tarifa média brasileira sobre produtos americanos era de apenas 2,7%. Propôs, em um gesto de firmeza e flexibilidade, a criação de um grupo de trabalho bilateral coordenado pelos ministros de comércio dos dois países, com a meta de apresentar uma proposta de solução em 30 dias. “Quem estiver errado vai ceder. Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder”, afirmou Lula. Trump aceitou a proposta, confirmando nas redes sociais que representantes de ambos os governos teriam reuniões de acompanhamento. Esse encaminhamento afastou o risco iminente de novas tarifas e transferiu a discussão para o campo da negociação técnica, o que foi considerado uma vitória diplomática brasileira.
Outro tema de grande interesse para Washington eram as vastas reservas brasileiras de minerais críticos e terras raras, essenciais para tecnologias limpas, defesa e eletrônicos. O governo Trump via o Brasil como alternativa à dependência da China nesse setor. Lula abordou o tema com cautela: deixou claro que o país estava aberto a parcerias com empresas dos EUA, China, Europa e Japão, mas em seus próprios termos, com prioridade para o processamento doméstico e a geração de empregos no Brasil. Na véspera da visita, o governo brasileiro aprovou um novo marco regulatório para o setor, sinalizando que o tema seria tratado como questão de soberania nacional. “Democracia e soberania nacional permanecem inegociáveis para o Brasil”, declarou Lula. Embora nenhum acordo concreto tenha sido fechado, as negociações ainda estavam em estágio preliminar, o simples fato de o tema ter sido tratado em nível presidencial representou um avanço significativo.
O combate ao crime organizado também foi central. Pairava a preocupação americana com a possível classificação de facções como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, algo que o governo brasileiro resistia firmemente, temendo margem para intervenções externas na segurança pública. O resultado foi um compromisso de fortalecer a cooperação em inteligência financeira, rastreamento de fluxos ilícitos e combate ao tráfico de armas e drogas. Lula anunciou que o governo lançaria na semana seguinte um plano abrangente de combate ao crime organizado, e que uma das áreas de cooperação seria “estrangular financeiramente” as organizações criminosas transnacionais. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, acrescentou que autoridades fiscais dos dois países realizarão operações conjuntas contra o contrabando de armas e o tráfico de drogas sintéticas.
O encontro ocorreu a apenas cinco meses das eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026, nas quais Lula buscaria um novo mandato. Trump era notório aliado de Jair Bolsonaro e de sua família política, e Flávio Bolsonaro despontava como provável adversário. Questionado sobre possível interferência de Trump no processo eleitoral, Lula afirmou não acreditar que o presidente americano “teria qualquer influência nas eleições brasileiras” e que confiava que Trump “se conduziria como um presidente dos Estados Unidos, permitindo que o povo brasileiro decidisse seu próprio destino”. A declaração projetava confiança e, ao mesmo tempo, servia como recado diplomático sobre os limites aceitáveis da influência externa. Do ponto de vista doméstico, a visita foi percebida como um trunfo para Lula: a imagem do presidente sendo recebido com tapete vermelho e recebendo elogios públicos de Trump neutralizando temporariamente a narrativa bolsonarista de que Lula seria um pária internacional.
A visita transcende a agenda bilateral. Em um mundo fragmentado, com tensões comerciais entre grandes potências e conflitos ativos, a reaproximação carregava significados amplos. Lula revelou que Trump lhe assegurou, em privado, que não tinha intenção de intervir militarmente em Cuba, um distanciamento notável da retórica belicosa pública. “Se vocês precisarem que o Brasil converse com qualquer país sobre a questão da interferência americana, seja em Cuba ou no Irã, o Brasil está disposto a conversar”, afirmou Lula, posicionando o país como interlocutor diplomático em questões sensíveis. Os líderes também discutiram a reforma do Conselho de Segurança da ONU, bandeira histórica do Itamaraty, ainda que sem avanços concretos.
A visita de maio de 2026 não produziu acordos espetaculares nem eliminou divergências estruturais, mas seus resultados foram consideráveis: um canal de negociação foi reaberto em bases pragmáticas, o risco iminente de novas tarifas foi afastado e a cooperação em áreas de interesse comum ganhou impulso político. Lula demonstrou que era possível dialogar com Trump sem renunciar a princípios fundamentais como a defesa da soberania e da democracia. Trump, por sua vez, mostrou que seu estilo transacional de fazer política externa podia incluir, quando conveniente, até mesmo um líder de esquerda com pouca afinidade ideológica.
Como toda aposta diplomática, os ganhos de curto prazo precisam ser confirmados. O grupo de trabalho sobre tarifas teria 30 dias para apresentar resultados concretos, e as eleições brasileiras de outubro introduziram novas variáveis. Mas, naquela tarde em Washington, a imagem dos dois líderes sorrindo lado a lado, com Lula brincando, “Ria. É importante. Alivia a nossa alma a gente rir um pouco”, já era, por si só, um resultado político expressivo: em um mundo de incertezas e polarizações, o diálogo ainda se mostrava possível.
REFERÊNCIAS
CBN. Trump chama Lula de "presidente muito dinâmico" após encontro na Casa Branca. CBN, 7 maio 2026. Disponível em: https://cbn.globo.com/mundo/noticia/2026/05/07/trump-chama-lula-de-presidente-muito-dinamico-apos-encontro-na-casa-branca.ghtml. Acesso em: 12 maio 2026.
JORNAL DO BRASIL. Visita de Lula a Trump desmonta mito do confronto irreconciliável. Jornal do Brasil, 7 maio de 2026. Disponível em: https://www.jb.com.br/pais/politica/2026/05/1060684-visita-de-lula-a-trump-desmonta-mito-do-confronto-irreconciliado.html. Acesso em: 12 maio 2026.
VALOR ECONÔMICO. Governo aprova marco regulatório para minerais críticos às vésperas de visita de Lula a Trump. Valor Econômico, 6 maio 2026. Disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/05/06/a-vesperas-de-visita-de-lula-a-trump-governo-aprova-marco-regulatorio-para-minerais-criticos.ghtml. Acesso em: 12 maio 2026.
CNN BRASIL. Telefonema de Joesley Batista ajudou a destravar encontro entre Lula e Trump. CNN Brasil, 7 maio de 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/telefonema-de-joesley-batista-ajudou-a-destravar-encontro-entre-lula-e-trump/. Acesso em: 12 maio 2026.
G1. Joesley intermediou telefonema que selou visita de Lula a Trump. G1, 7 maio 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/07/o-telefonema-intermediado-por-joesley-que-selou-a-visita-de-lula-a-trump.ghtml. Acesso em: 12 maio 2026.
TRIBUNA DO NORTE. Lula propõe um grupo de trabalho e negocia tarifas com Trump. Tribuna do Norte, 8 maio de 2026. Disponível em: https://tribunadonorte.com.br/politica/lula-propoe-grupo-de-trabalho-e-negocia-tarifas-com-trump/. Acesso em: 12 maio 2026.
WIKIPEDIA. Second presidency of Donald Trump. Wikipedia, 2026. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Second_presidency_of_Donald_Trump. Acesso em: 12 maio 2026.
AGÊNCIA BRASIL. Lula e Trump conversaram por telefone em dezembro de 2025. Agência Brasil, dez. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2025-12/lula-e-trump-conversam-por-telefone. Acesso em: 12 maio 2026.
O GLOBO. Biden oferece apoio ao Fundo Amazônia, mas valor desembolsado é de apenas US$ 50 milhões. O Globo, 10 fev. 2023. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/02/10/biden-oferece-apoio-ao-fundo-amazonia-mas-valor-desembolsado-e-de-apenas-us-50-milhoes.ghtml. Acesso em: 12 maio 2026.
DEUTSCHE WELLE. Lula e Biden se reúnem em Washington para discutir democracia e clima. DW Brasil, 10 fev. 2023. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/lula-e-biden-se-re%C3%BAnem-em-washington-para-discutir-democracia-e-clima/a-64670349. Acesso em: 12 maio 2026.










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