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Yo canto a la diferencia: Brasil, México e… Bachelet

  • carinewspuc
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Por Ellen Araújo


UN Photo/Loey Felipe
UN Photo/Loey Felipe

No dia 2 de fevereiro de 2026, em Nova York, a candidatura de Michelle Bachelet para Secretária-Geral da ONU foi anunciada por Gabriel Boric (então presidente chileno), com apoio das duas maiores potências da América Latina: Brasil e México. Nem a posterior chegada do pinochetista Kast ao Palacio de La Moneda (que removeu o nome do Chile), abalou o coro feito por Lula e Claudia Sheinbaum: 80 anos já se passaram, e a ONU jamais elegeu uma mulher para ocupar a cadeira de Secretária-Geral; estamos esperando o quê? 

Naquele mesmo mês, outro aspirante ao posto, o ítalo-argentino Rafael Grossi, expressou que a escolha do Brasil lhe causava dor, defendeu uma ONU “com menos gordura e mais músculo” (talvez um autoelogio ao seu perfil técnico) e, como em muitas entrevistas, exaltou o papel da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) - sob sua direção desde 2019, quando recebeu forte endosso brasileiro (que nenhuma parte se esqueça).

Grossi conta com o apoio do presidente argentino Javier Milei, do Paraguai e da Itália (onde também possui cidadania). É considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela edição de 2026 da revista Time. Foto: Tomas Benedikovic/AFP
Grossi conta com o apoio do presidente argentino Javier Milei, do Paraguai e da Itália (onde também possui cidadania). É considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela edição de 2026 da revista Time. Foto: Tomas Benedikovic/AFP

Diante de cases de menor sucesso, sua resposta sempre é, de fato, técnica: Índia, Paquistão e Israel não aderiram ao TNP (Tratado de Não-Proliferação); a Coreia do Norte saiu; o Irã ainda não, portanto, vamos cobrar as regras. “O senhor conversou com o secretário-geral da Otan?”, indagava um jornalista em 2024, sobre a aliança militar ter sugerido disponibilizar armas nucleares à Zelensky. “Não”. “Pretende conversar?”. “Não”.

Foram com essas e tantas outras questões de fundo, que dei play nas sabatinas da ONU (oficialmente, “Diálogos Interativos”). Cada candidato e candidata ao mais alto cargo da instituição se submete a um intenso “bombardeio” de perguntas, vindas de todas as direções da Assembleia Geral ─ com direito a 2 minutos de réplica por bloco. Vale à pena assistir às 3h de duração. Mas entendi logo no discurso de abertura da Bachelet, a convicção dos nossos governos em apoiá-la. Destaco, em tradução livre:

Acredito ser minha obrigação buscar responder às suas perguntas e ouvi-los hoje. Mas antes de fazê-lo, permitam-me compartilhar minha mensagem central: a necessidade urgente de esperança (...) No dia do Golpe de Estado de 1973 em meu país, meu pai - um membro honrado da Força Aérea Chilena que acreditava profundamente no Estado de Direito - sofreu as consequências quando aqueles no poder se voltaram contra ele.

No entanto, foi a pressão internacional e a solidariedade global que ajudaram a restaurar a paz e a democracia em minha pátria. Em um momento em que precisávamos desesperadamente de esperança, o mundo a forneceu (...) Violeta Parra, lendária cantora folclórica de minha terra, cantou uma vez que os dois materiais que forjam a arte eram: “o seu canto, que é também o meu, e o canto de todos, que é o meu próprio”. É um sonho que encontra voz na boca dos outros, tornando-se palavra e, finalmente, uma canção compartilhada”.  

Bachelet foi a primeira sabatinada. Para acessar sua sessão (e dos demais candidatos): https://news.un.org/en/story/2026/04/1167342
Bachelet foi a primeira sabatinada. Para acessar sua sessão (e dos demais candidatos): https://news.un.org/en/story/2026/04/1167342

Nós, internacionalistas, não somos neutros. Aprendemos cedo na graduação que, as teorias, tampouco. Desde Brasil, me somo à torcida por uma ONU que saiba esperançar: “é preciso ter esperança, mas tem de ser esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E a esperança do verbo esperar não é esperança, é espera” (Freire, 1992).



REFERÊNCIAS

CARMO, Wendal. Lula recebe Michelle Bachelet e reafirma apoio à sua candidatura para chefia da ONU. CartaCapital, São Paulo, 11 de maio de 2026. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/lula-recebe-michelle-bachelet-e-reafirma-apoio-a-sua-candidatura-para-chefia-da-onu/. Acesso em: 13 de maio de 2026. 

COLETTA, Ricardo Della. ONU precisa de menos gordura, e é doloroso Brasil apoiar outro nome, diz candidato argentino. Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 de fev. de 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/02/onu-precisa-de-menos-gordura-e-e-doloroso-brasil-apoiar-outro-nome-diz-candidato-argentino.shtml. Acesso em: 13 de maio de 2026.

FEITOZA, César. Ideia de introduzir armas nucleares na Guerra da Ucrânia é inaceitável, diz chefe de agência da ONU. Folha de S.Paulo, São Paulo, 20 de jun. de 2024. Disponível em:  https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2024/06/ideia-de-introduzir-armas-nucleares-na-guerra-da-ucrania-e-inaceitavel-diz-chefe-de-agencia-da-onu.shtml. Acesso em: 13 de maio de 2026.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 

GIELOW, Igor. ONU vê risco de nova guerra no Irã, diz diretor nuclear à Folha. Folha de S.Paulo, São Paulo, 26 de set. de 2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/09/onu-ve-risco-de-nova-guerra-no-ira-diz-diretor-nuclear-a-folha.shtml. Acesso em: 13 de maio de 2026. 

KAST quer falar com Lula sobre apoio a Michelle Bachelet para chefiar ONU. CNN Brasil, São Paulo, 22 de fev. de 2026. Dispoível em: https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/luciana-taddeo/internacional/kast-quer-falar-com-lula-sobre-apoio-a-michelle-bachelet-para-chefiar-onu/. Acesso em: 13 de maio de 2026.

NAÇÕES UNIDAS. Michelle Bachelet Jeria - dialogue for the next UN chief position. YouTube, 21 de abr. de 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bNHK9SCnq1g. Acesso em: 7 de maio de 2026. 

NICHOLS, Michelle. How will the next UN chief be chosen and who wants the job? Reuters, Londres, 14 de jan. de 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/how-will-next-un-chief-be-chosen-who-wants-job-2026-03-26/.  Acesso em: 13 de maio de 2026. 

VERDÉLIO, Andreia. Após recuo do Chile, Lula mantém apoio a Bachelet para chefiar a ONU. Agência Brasil, Brasília, 28 de mar. de 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-03/apos-recuo-do-chile-lula-mantem-apoio-bachelet-para-chefiar-onu. Acesso em: 13 de maio de 2026.

 
 
 

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