Sudão em colapso: guerra, fome e deslocamento em massa
- carinewspuc
- 21 de mai.
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Por Júlia Bukalil
Ao completar seu terceiro ano de guerra civil oficial em abril de 2026, o Sudão consolida-se como o cenário da maior crise humanitária e de deslocamento do planeta. O conflito, que opõe as Forças Armadas do Sudão (FAS) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), já forçou cerca de 14 milhões de pessoas a abandonarem suas casas e deixou mais de 29 milhões — mais da metade da população — em situação de insegurança alimentar extrema. Diante de um cenário de massacres e violações sistemáticas, a comunidade internacional observa agora uma tentativa de intervenção diplomática dos Estados Unidos, motivada por pressões de aliados estratégicos no Oriente Médio.

A "guerra dos generais", iniciada em 15 de abril de 2023 entre Abdel Fattah al-Burhan (FAS) e Mohamed Hamdan "Hemeti" Dagalo (RSF), transformou o país em um território fragmentado. Segundo relatórios recentes da ONU e do El País, a ausência de uma trégua transformou cidades inteiras em ruínas, com o colapso total dos serviços de saúde e infraestrutura básica. Em regiões como Darfur do Norte, a captura de redutos estratégicos pelas forças paramilitares foi seguida por denúncias de crimes de guerra, incluindo execuções sumárias e o uso sistemático de violência sexual como arma tática contra mulheres e meninas.
A fome é uma das consequências graves do conflito que avança sobre o Sudão. Dados da CNN Brasil e de relatórios globais indicam que o país abriga duas das raras áreas no mundo onde a carestia foi declarada oficialmente, como em El Fasher. A queda de quase 40% no financiamento humanitário internacional em relação aos anos anteriores agravou o isolamento de comunidades cercadas, onde famílias inteiras morrem por falta de acesso a cereais básicos e água potável.
Ademais, a ONU Mulheres afirma que os maiores alvos do conflito têm sido mulheres e crianças, e alerta que sudanesas são abusadas em suas próprias casas, e que o uso da violência sexual foi incorporado ao próprio plano de guerra. Mais de 4,3 milhões de mulheres e meninas estão deslocadas, muitas vezes completamente isoladas das necessidades básicas de sobrevivência. Já o Unicef registrou ao menos 245 vítimas fatais menores de idade apenas nos primeiros três meses de 2026, com 10 milhões de crianças em idade escolar fora das salas de aula.
O apelo por doações lançado pela ONU para 2026 está financiado em apenas 16%. Na Conferência sobre o Sudão realizada em Berlim, em 15 de abril de 2026, doadores internacionais prometeram 1,5 bilhão de euros em ajuda, incluindo 812 milhões de euros da União Europeia e de seus Estados-membros. Ainda assim, os compromissos financeiros têm historicamente ficado aquém do necessário.
No campo diplomático, o cenário apresenta uma mudança de tom. Recentemente, o governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, sinalizou planos para uma intervenção mais direta no conflito. Inicialmente resistente a se envolver no que chamou de uma crise "fora de controle", o presidente norte-americano mudou sua postura após reuniões estratégicas com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman. A Arábia Saudita, que teme a instabilidade regional e a crise de refugiados no Mar Vermelho, solicitou formalmente a influência da Casa Branca para forçar um cessar-fogo imediato, embora especialistas alertem que uma paz duradoura exige mais do que pressão externa, dada a profundidade das divisões étnicas e de poder no país.
Sobretudo, analistas alertam que há obstáculos políticos significativos para um avanço real, uma vez que os Emirados Árabes Unidos — amplamente acusados de fornecer armas às RSF — são aliados estratégicos dos EUA nos Acordos de Abraão, uma prioridade declarada da política externa de Trump.
O Sudão entra em seu terceiro ano de guerra sem perspectivas claras de paz interna. Enquanto as potências mundiais debatem estratégias de mediação, o custo humano continua a subir de forma exponencial. O país corre o risco real de uma desintegração total, deixando uma geração inteira de crianças — as principais vítimas da desnutrição e da falta de escolas — marcada pelas cicatrizes da maior negligência humanitária deste século. A eficácia da prometida intervenção dos EUA será o teste decisivo para saber se o Sudão terá a chance de uma reconstrução ou se continuará mergulhado em um abismo sem fim à vista.










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