Ormuz, 2026: o paralelo com Suez e os limites do poder americano
- carinewspuc
- 6 de mai.
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Por Isabela Menezes
O fechamento do Estreito de Ormuz — via por onde transitam cerca de 20% do petróleo mundial e uma parcela significativa do comércio global de Gás Natural Liquefeito (GNL) — decorre da guerra iniciada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã em 28 de fevereiro de 2026. A interrupção dessa rota marítima desencadeou uma crise de grandes proporções que, assim como ocorreu com o Canal de Suez em 1956, evidencia os limites do poder de uma potência hegemônica em declínio e expõe a vulnerabilidade das cadeias globais de suprimento energético. Setenta anos após a crise de Suez ter revelado o enfraquecimento dos impérios coloniais europeus, a situação no Golfo Pérsico demonstra o desgaste da influência unilateral dos Estados Unidos, que enfrentam o isolamento de aliados importantes e uma escalada militar sem horizonte político claro de resolução.

Para compreender o paralelo histórico, é necessário retomar os acontecimentos de 1956. Em julho daquele ano, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser anunciou a nacionalização da Companhia do Canal de Suez, até então controlada por capitais britânicos e franceses. A medida representava um desafio direto aos interesses estratégicos das antigas potências coloniais, uma vez que o canal era a principal rota de escoamento do petróleo do Golfo Pérsico para a Europa. Em resposta, os governos da Grã-Bretanha e da França articularam secretamente com Israel um plano militar: as forças israelenses invadiriam a Península do Sinai, fornecendo o pretexto para que tropas franco-britânicas interviessem como uma suposta força de paz e retomassem o controle da via navegável.
A operação militar, iniciada no final de outubro de 1956, foi executada com rapidez e eficiência. O desfecho político, no entanto, foi oposto ao esperado. O governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Dwight Eisenhower, considerou a ação uma reminiscência do colonialismo europeu e, acima de tudo, temeu que a crise abrisse espaço para uma maior influência soviética no Oriente Médio. Washington utilizou instrumentos financeiros para pressionar o Reino Unido: bloqueou um empréstimo do Fundo Monetário Internacional à economia britânica, que já enfrentava dificuldades, e ameaçou vender reservas de libra esterlina, o que desvalorizaria a moeda britânica. Sem o apoio americano e sob pressão econômica, o Reino Unido e a França foram forçados a retirar suas tropas. A crise de Suez marcou, assim, o fim da capacidade dessas duas potências europeias de conduzirem ações militares de grande escala sem o consentimento de Washington, ao mesmo tempo em que consolidou os Estados Unidos como principal árbitro do Ocidente.
O paralelo com o Estreito de Ormuz em 2026 reside no fato de que ambas as crises envolvem o controle de um afunilamento marítimo essencial à economia global e, sobretudo, no modo como tais eventos expõem os limites de uma potência hegemônica que age sem respaldo internacional suficiente. Assim como a Grã-Bretanha e a França em Suez, os Estados Unidos e Israel deflagraram uma ofensiva militar baseada na expectativa de uma vitória rápida e decisiva, que incluía a eliminação da liderança iraniana e ataques a instalações nucleares. Essa expectativa não se confirmou. O Irã, enfrentando uma ameaça existencial ao seu regime, não colapsou como previsto, e a resposta iraniana no Estreito de Ormuz resultou no fechamento da via.
A reação internacional também guarda semelhanças com 1956, embora com uma diferença fundamental. Na crise de Suez, foram os Estados Unidos que impuseram a retirada aos seus aliados europeus. Em 2026, são os próprios Estados Unidos que atuam com apoio internacional restrito. Países europeus, membros da OTAN, têm demonstrado relutância em oferecer apoio às operações no Golfo Pérsico, enquanto potências regionais e emergentes buscam diversificar suas parcerias de segurança para reduzir a dependência de Washington. O isolamento que em 1956 recaiu sobre Londres e Paris agora atinge, em certa medida, a posição americana.
Há, contudo, distinções importantes que tornam a crise de Ormuz potencialmente mais grave e de mais difícil solução do que a de Suez. Em primeiro lugar, a crise de 1956 foi resolvida de forma relativamente rápida pela pressão financeira americana e pela atuação diplomática da União Soviética. O Egito de Nasser, embora derrotado militarmente no Sinai, preservou o controle do canal e saiu politicamente fortalecido. No caso de Ormuz, o governo iraniano enfrenta um ataque direto à sua sobrevivência como regime, o que reduz drasticamente o espaço para negociações diplomáticas e eleva o risco de um conflito prolongado. Em segundo lugar, as consequências econômicas são mais abrangentes. O Canal de Suez afetava primordialmente o fluxo de petróleo do Oriente Médio para a Europa. O Estreito de Ormuz, por sua vez, é uma via de passagem não apenas de petróleo, mas também de GNL, produtos industrializados e commodities alimentícias que abastecem mercados na Ásia, na Europa e em economias emergentes. A interrupção simultânea desses fluxos amplifica o risco de instabilidade econômica em escala global.
A crise do Estreito de Ormuz não criou o declínio relativo da influência americana no Oriente Médio, mas o tornou mais evidente. A intervenção militar que pretendia demonstrar poder de dissuasão e capacidade de imposição revela, na prática, os limites da ação unilateral em um contexto de reconfiguração das alianças regionais e de crescente multipolaridade. Assim como em 1956 os Estados Unidos compreenderam que a era dos impérios coloniais europeus havia terminado e agiram para encerrar a operação franco-britânica, a questão que se coloca agora é se Washington reconhecerá que o uso da força militar, dissociado de uma estrutura multilateral de apoio, não é suficiente para assegurar o controle duradouro sobre rotas marítimas críticas em um cenário internacional alterado.
REFERÊNCIAS
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Ceasefire deal in jeopardy on Day 1 as Iran closes Hormuz following Israel strikes against Lebanon - Global Times. Disponível em: <https://www.globaltimes.cn/page/202604/1358593.shtml>. Acesso em: 15 abr. 2026.
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PSAROPOULOS, J. T. After Iran’s warning, Europe fails to unite on war launched by US, Israel. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2026/3/4/amid-middle-east-crisis-europe-fumbles-towards-mutual-defence>.










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