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Extrema direita perde eleições na Hungria: quem são Viktor Orbán e Péter Magyar?

  • carinewspuc
  • 14 de mai.
  • 5 min de leitura

Por Bella Bar



No dia 12 de abril, Viktor Orbán, um dos principais nomes da extrema direita global, perdeu as eleições parlamentares para Péter Magyar na Hungria, após 16 anos no posto de primeiro-ministro. Magyar, líder do partido de direita tradicional Respeito e Liberdade (Tisza), foi aliado de Orbán, mas passou a acusar o então primeiro-ministro de agir de forma autoritária. Ademais, Magyar adota uma posição pró-União Europeia, enquanto Orbán é um forte aliado de Putin e considerado um ícone da extrema direita global.

Com 95,63% das urnas apuradas, o Tisza conquistou 137 das 199 cadeiras do Parlamento, obtendo mais de dois terços da Assembleia Nacional. O partido de extrema direita nacionalista, Fidesz (União Cívica Húngara), liderado por Viktor Orbán, ficou com 55 cadeiras, segundo o órgão eleitoral nacional (NVI). A votação parlamentar teve participação recorde: o pleito registrou 66% de comparecimento. Essa eleição representa uma mudança estrutural da política húngara e europeia, evidenciando implicações significativas não apenas para a Hungria, mas para a Europa e sua extrema-direita populista.



ORBÁN


Após o avanço da apuração, Orbán admitiu publicamente a derrota, e disse que "o resultado da eleição é claro e doloroso". 

Líder juvenil fervorosamente anticomunista na Guerra Fria, Orbán é o governante há mais tempo no poder na União Europeia. Para apoiadores, ele é um símbolo patriótico por ter liderado mobilizações pró-democracia no fim da década de 1980, possibilitando as primeiras eleições democráticas da Hungria em 1990. Ele foi eleito primeiro-ministro pela primeira vez em 1998 e governou o país por quatro anos. 

Críticos, porém, afirmam que o premiê conduziu o país para o autoritarismo. Em 2010, retornou ao poder com uma vitória esmagadora e, desde então, permaneceu no cargo por longos 16 anos. Orbán venceu as quatro últimas eleições parlamentares com ampla vantagem. A oposição fragmentada, somada ao controle político do premiê, ajudou a consolidar esses resultados.                                

Até este ano, Fidesz tinha ampla maioria no Parlamento, poder que capacitou o partido a reescrever a Constituição e aprovar leis com o objetivo de criar o que chama de uma "democracia cristã iliberal". As políticas do premiê restringiram a liberdade de imprensa e as atividades de ONGs, enfraqueceram a independência do judiciário e limitaram direitos de minorias, como a comunidade LGBTQIA+. Dessa forma, medidas anti-imigração e uma postura nacionalista e conservadora ajudaram a manter o apoio popular e a inspirar a extrema-direita mundial. 

Ao mesmo tempo, a atuação de Orbán gerou atritos com a União Europeia, que ao criticar fortemente o então primeiro-ministro, chegou a suspender bilhões de euros em repasses à Hungria por violações de padrões democráticos. A postura conflituosa e desafiadora anti-União Europeia de Viktor Orbán inspirou líderes populistas e autoritários, e possibilitou a construção de uma aliança com chefes de Estado como Vladimir Putin, Donald Trump e Jair Bolsonaro. Orbán tornou-se um ícone da extrema direita global. 

Trump, inclusive, atuou diretamente na campanha atual. O presidente norte-americano recebeu Orbán na Casa Branca em fevereiro e publicou uma mensagem de apoio à reeleição do premiê nas redes sociais Dias antes da eleição, Trump enviou o vice-presidente J.D. Vance à Hungria para participar de eventos ao lado do premiê. Em discurso, Vance acusou a União Europeia de tentar interferir no pleito e classificou a estratégia como "vergonhosa".

Neste ano, o cenário mudou. Com a economia estagnada há três anos e o enriquecimento de uma elite ligada ao governo, Orbán perdeu força interna e viu o ex-aliado Péter Magyar ganhar espaço. Assim, a mudança de governo pode destravar um empréstimo europeu de 90 bilhões de euros e reduzir a influência russa no bloco.



MAGYAR


Péter Magyar, ex-aliado de Orbán, prega mudanças estruturais na política húngara. Seu partido, mesmo vencendo as eleições, lidará com um sistema entrincheirado com aliados do ex-primeiro-ministro.

Magyar ganhou espaço ao prometer reaproximação com aliados ocidentais. Ainda segundo o líder, a Hungria será uma forte aliada da UE e da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Segundo o novo primeiro-ministro, "A transição será pacífica e tranquila", acrescentando que "as instituições independentes" do país "foram capturadas nos últimos 16 anos", e afirmou que o país “foi recuperado” após o pleito. Segundo ele, a transição de governo contará com um  “forte mandato” concedido pelas urnas.

Ademais, Magyar prometeu acabar com sua dependência da energia russa até 2035, enquanto busca "relações pragmáticas" com Moscou. Ele também prometeu desbloquear os fundos congelados da UE, o que ajudaria a reanimar a economia estagnada da Hungria.

Ao mesmo tempo, sua postura pragmática revela a sua estratégia de agir com cautela, para não afastar os eleitores mais conservadores, principalmente ao defender a manutenção das políticas de combate à imigração ilegal.

Na esfera nacional, Magyar afirmou que vai representar todos os húngaros e que "aqueles que fraudaram" o país "serão responsabilizados". Ele também pediu a renúncia do presidente da Suprema Corte, do procurador-geral e dos chefes da mídia e do órgão de defesa da concorrência. 

Magyar, cujo sobrenome significa literalmente "húngaro", ganhou notoriedade há dois anos, depois que sua ex-esposa, Judit Varga, ex-ministra da Justiça de Orbán, renunciou a todos os cargos políticos após um indulto em um caso de abuso sexual que causou indignação pública em 2024.

O opositor afirmou ter se inspirado em Orbán no início da carreira política, mas rapidamente se afastou do premiê, passando a acusar o partido governista de corrupção e de disseminar propaganda. Após isso, Magyar mudou de partido, dizendo que estava desiludido com o Fidesz.

Apenas quatro meses após emergir do quase completo anonimato com uma entrevista no canal do YouTube Partizan, o novo partido de Magyar conquistou 30% dos votos nas eleições europeias de junho de 2024, ficando em segundo lugar, atrás do Fidesz, e esmagando o restante da oposição.

O opositor inspirou-se na estratégia de Orbán nesta eleição, que aposta em discursos voltados às redes sociais e em comícios com estética patriótica. Ao criticar o atual governo, passou a ser visto por apoiadores como alguém que "enfrenta o sistema", conduzindo uma campanha popular que o levou aos redutos rurais do Fidesz. Ademais, a campanha de ambos também tendeu a apelar aos votos dos jovens. 



UE


A presidente da Comissão Européia (Ursula von der Leyen) comemorou a derrota de Orbán e associou a votação a uma guinada pró-União Europeia. "O coração da Europa está batendo mais forte na Hungria esta noite", afirmou. Von der Leyen disse que o resultado indica uma escolha política do eleitorado húngaro, e acrescentou: "O país escolheu a Europa".

Além de manter congelados recursos destinados à Hungria por violações de padrões democráticos, os países da União Europeia buscam aprovar definitivamente um empréstimo de €90 bilhões para a Ucrânia, que vinha sendo bloqueado por Budapeste.

O veto foi imposto pelo governo de Viktor Orbán como forma de pressão em uma disputa envolvendo um oleoduto danificado que transporta petróleo russo. No entanto, após o anúncio de que o fornecimento será retomado até o fim de abril, a Hungria sinalizou que pode retirar a objeção.

Esse impasse só foi possível porque certas decisões da UE — como grandes pacotes financeiros — exigem unanimidade entre os 27 países-membros, permitindo que um único país bloqueie a aprovação.

O tema deve ser decidido em reunião diplomática liderada pela presidência rotativa do Chipre. O bloqueio gerou tensões entre os líderes europeus, mas há expectativa de avanço: o presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou estar “razoavelmente otimista” quanto à liberação do empréstimo após mudanças no cenário político húngaro.

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