Entre o gelo do himalaia e o calor das ruas: O levante da geração Z no Nepal
- carinewspuc
- 10 de out. de 2025
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Atualizado: 12 de out. de 2025
Departamento Socioambiental e dos Direitos Humanos

O Nepal é um país no Sul da Ásia, de língua oficial Nepalesa, onde se encontra parte da Cordilheira do Himalaia, bem próxima à capital Kathmandu. Ademais, em sua fronteira com a China, compartilham para além de relações econômicas e diplomáticas, a montanha mais alta do mundo, o monte Everest. Sua origem e história são bem particulares, situado entre Índia e China, com uma grande diversidade de povos em seu país, oriundos de lugares como Tibet, que formaram o povo Newar no Himalaia, além de migrações de povos Indo-arianos da Índia.
Mesmo com uma grande diversidade étnica, a religião hinduísta é a predominante no país, compondo 80% da população. Ainda que Sidarta Gautama, mais comumente conhecido como o Buda, tenha nascido na região que hoje é o Nepal, apenas 10% da população é budista praticante, tendo a religião como elemento presente na cultura nepalesa de forma mais geral. Em 2008, o Nepal pôs fim a sua monarquia hinduísta, que, se consolidou no ano de 1769 através da conquista de três reinos Malla, Patan e Bhadgaon, unidos agora sobre uma única bandeira e monarquia, que deu início do reinado da Dinastia Shah, que perdurou por cerca de 240 anos.
No século XVIII possuíam planos de expansão ambiciosos, porém, após a perda da guerra com a China no Tibet e com a Índia no século XIX, desistiram de seus planos de expansão e definiram os limites que perduram até a atualidade. Logo, no século XIX, a conquista britânica da Índia fez com que o pequeno reino se sentisse ameaçado, então, com o objetivo de não acabar na posição de colônia, resolveram se aliar aos britânicos. Com essa aliança, a monarquia abria mão da sua liberdade de política externa para preservar sua monarquia, que agora seria apoiada pela Grã- Bretanha.
Os reis nepaleses não detinham de todo o poder, eram controlados por famílias nobres influentes durante séculos, contudo, com a saída britânica da Índia em 1947, a dinastia Rana não detinha mais o apoio dos ingleses para controlar a família real. Dessa forma, o rei da época, apoiado por movimentos nacionalistas, restaurou a soberania da coroa, além de instaurar um novo sistema político. Diante disso, foi instaurada a monarquia constitucional, com diversas constituições desde então, em destaque para a de 1959, a promulgação da primeira constituição, a segunda estabelecida em 1962 onde estabelecia a maior autoridade o rei, e em última relevância a de 2015, que perdura até os dias atuais.
Mediante os avanços e movimentos contra revolucionários, na década de 80 foi instaurada a Assembleia Nacional com eleições diretas, sem abolir a constituição de 62.
Com o restabelecimento do parlamento em conjunto com as exigências dos maoístas de uma urgente dissolução da democracia, foi acordado em 2007 que a monarquia seria abolida. As eleições ocorreram em 2008, eleições diretas para presidente, que inaugurariam a era republicana do Nepal.
A monarquia nepalesa se sustentou até o século XXI apoiando-se em mecanismos de legitimidade que dialogam com estratégias comuns a outras monarquias contemporâneas, como no Reino Unido, na Jordânia e Tailândia, que vem usando historicamente da sacralidade religiosa, a adaptação política e a representação de uma unidade nacional para se manterem no poder. No caso nepalês, o uso e o ‘abuso’ desses mecanismos, sustentou a monarquia no país por mais de dois séculos adentro na modernidade.
Em primeiro lugar, é necessário destacar que a monarquia nepalesa considerava o rei uma encarnação do deus hindu Vishnu, uma particularidade que garantia prestígio e legitimidade inquestionáveis, já que se trata de uma sociedade majoritariamente hindu. A sacralização religiosa do poder no Nepal reforçava a imagem de continuidade histórica e cultural, algo comum em outras monarquias modernas, como a britânica, que preserva o seu simbolismo por meio da tradição e dos costumes, mesmo em um Estado secular.
Segundo, os monarcas nepaleses passaram a buscar por estratégias de adaptação para sobreviver a contextos de contestação política do povo. Um exemplo dessa busca extrema pela manutenção do poder ocorreu na década de 1960, quando o rei Mahendra criou o sistema Panchayat, mantendo o autoritarismo sob a fachada de uma “participação popular”. Em contrapartida, seu filho Birendra, já no final do século XX, vivenciava o enfraquecimento do regime monárquico diante da intensa mobilização popular durante a onda democrática de 1990, aceitando a transição para uma monarquia constitucional, preservando assim sua autoridade simbólica e a continuidade da instituição real dentro de um regime multipartidário.
Por fim, cabe ressaltar que o Nepal é um país fragmentado por diferenças étnicas e linguísticas e portanto, a monarquia se projetava como símbolo de unidade nacional. O rei então era apresentado como a personificação da soberania e da continuidade do Estado, elemento essencial em uma região marcada pela pressão externa da Índia e da China. Essa função de “guardião” da identidade coletiva é comparável ao papel desempenhado pela monarquia em países como o Marrocos, onde o rei também combina legitimidade religiosa e política para se afirmar como unidade.
Contudo, a derrocada da monarquia nepalesa ocorreu somente no início do século XXI, quando o massacre real de 2001, perpetrado pelo príncipe Dipendra — filho do rei Birendra e da rainha Aishwarya — abalou profundamente o país. Na ocasião, Dipendra abriu fogo contra seus pais e outros membros da família real, antes de atirar em si mesmo. Esse evento trágico corroeu a sacralidade da monarquia, minando a reverência popular pela instituição. Paralelamente, a insurgência maoísta expôs a fragilidade da monarquia como centro de estabilidade política.
Com a ascensão do rei Gyanendra, tio de Dipendra, em 2001, houve uma tentativa de restaurar o poder absoluto onde ele dissolveu o Parlamento em 2002, demitiu membros do governo e em 2005, assumiu o controle direto do governo, alegando ineficiência na contenção dos maoístas. No entanto, essas medidas autoritárias, dentre tantas outras, provocaram protestos massivos, como Jana Andolan II (“Movimento Popular”) em 2006, e intensificaram o isolamento interno e internacional da monarquia. Consequentemente, a coalizão entre partidos políticos tradicionais e maoístas fortaleceu a resistência contra o rei, resultando em uma pressão para o retorno da democracia. Enfraquecido, o rei Gyanendra foi forçado a restituir o Parlamento em abril de 2006, marcando o fim de seu poder. Com o restabelecimento do parlamento em conjunto com as exigências dos maoístas de uma urgente dissolução da democracia, foi acordado em 2007 que a monarquia seria abolida.
A legitimidade real então entrou em colapso, culminando, em 2008 as eleições diretas para presidente, que inaugurariam a era republicana do Nepal, com a declaração oficial do fim da monarquia pela Assembleia Constituinte e a transformação do Nepal em uma república federal democrática — encerrando assim mais de dois séculos de tradição monárquica.
Em setembro de 2025, o Nepal mergulhou em uma convulsão sociopolítica sem precedentes. Uma onda de protestos liderada pela Geração Z forçou a renúncia do primeiro-ministro K. P. Sharma Oli, levou à suspensão do parlamento federal e culminou na invasão e no incêndio de prédios governamentais históricos. O movimento expôs não apenas a insatisfação da juventude, mas também o fracasso de uma transição democrática que, desde 2008, não conseguiu entregar estabilidade política nem crescimento econômico.
A instabilidade política é a marca registrada do país: em 17 anos de república, foram 14 governos, nenhum deles completando o mandato. No campo econômico, a situação é igualmente frágil. O Nepal segue entre os países mais pobres da Ásia, com desemprego juvenil acima de 20%. O abismo entre a elite política e os jovens se aprofundou diante da ostentação dos chamados “nepo-kids”, filhos de líderes políticos, em contraste com a realidade de precariedade enfrentada pela maioria da população. O estopim ocorreu em 4 de setembro, quando o governo proibiu o uso de redes sociais como Facebook, Instagram e YouTube. A medida foi interpretada como censura e tentativa de silenciar críticas. Como a internet é o principal espaço de debate público no país, a decisão foi vista como o fechamento do espaço cívico. A repressão que se seguiu aos protestos de 8 de setembro deixou mais de 50 mortos, após o uso de gás lacrimogêneo, balas de borracha e canhões de água contra manifestantes.
Os atos, porém, revelaram novas formas de mobilização. Organizados de maneira descentralizada por meio de servidores no Discord, os protestos chegaram a indicar, via votação online, a ex-juíza Sushila Karki como primeira-ministra interina. O gesto, simbólico, reforçou a rejeição às instituições tradicionais, vistas como corruptas e distantes da população. A crise nepalesa também dialoga com o cenário regional. Protestos de grande escala no Sri Lanka (2022) e em Bangladesh (2024) serviram de inspiração. O denominador comum é claro: economias frágeis, alto desemprego juvenil e governos liderados por políticos septuagenários considerados desconectados da realidade. O efeito de demonstração, alimentado pela circulação de imagens e narrativas nas redes sociais, foi determinante para a escalada da mobilização.
Para os analistas, o futuro do Nepal combina esperança e incerteza. De um lado, a energia política da Geração Z contrasta com o desinteresse juvenil observado em outros países e abre espaço para reformas. De outro, o desafio será transformar protesto em governança. A transição por vias não convencionais, alertam especialistas, pode levar tanto a uma renovação democrática quanto a um ciclo de instabilidade e retrocesso autoritário, em um cenário comparável ao da Primavera Árabe. As eleições estão previstas para 2026, mas até lá, o país enfrenta o duplo desafio de restaurar a ordem e reconstruir a confiança em suas instituições.
As ondas de manifestações populares não foram fenômenos exclusivos ao Nepal; No decorrer do ano, protestos semelhantes eclodiram por diversos países do sul global, especialmente no sudeste asiático.
Nas Filipinas, escândalos de corrupção ligados a projetos fantasma de infraestrutura para combate às enchentes que assolam o país geraram revolta na população. O ministro do planejamento econômico filipino afirmou que 70% do fundo público alocado para o controle de enchentes foi desviado em esquemas de corrupção. Dados do Greenpeace estimam que esse valor chegue a US$18 bilhões de dólares de 2023 a 2025. A insatisfação popular se traduziu em uma série de protestos marcados para domingo, 21 de setembro, data que marca também o aniversário da imposição de lei marcial de 1972, medida tomada pelo ditador Ferdinand Marcos, pai do atual presidente do país.
Na Indonésia, é a aprovação de uma medida que concede um auxílio de custo para parlamentares que equivalia a 10 vezes o salário mínimo da capital Jacarta que serviu como catalisador para as manifestações populares, que alcançaram novos níveis de tensão quando um veículo da Brigada Móvel da Polícia avançou sobre os manifestantes em frente ao prédio do Parlamento, ceifando a vida de Affan Kurniawan, um entregador por aplicativo de apenas 21 anos. Desde então, o aumento da repressão policial violenta instaurou um cenário de instabilidade ainda mais delicado no país.
Narrativas semelhantes permeiam o contexto político do Timor Leste. No final de agosto, protestos também eclodiram na capital Díli, tendo como estopim a aprovação de uma verba de $4.2M para a compra de SUVs para cada um dos 65 membros do parlamento. Também foi pauta dos manifestantes a revogação de uma lei de 2006 que concedia pensão vitalícia equivalente ao valor de seus salários para todos os parlamentares e alguns funcionários públicos. Medidas como essa se mostram mais ultrajantes quando se considera que, segundo dados do Banco Mundial, 40% da população timorense vive abaixo da linha da pobreza. Após cerca de três dias de demonstrações públicas, os membros do parlamento decidiram revogar ambas as medidas, o que demonstra o poder que detém uma população unida e mobilizada em prol de uma causa.
Assim, o caso do Nepal evidencia que as monarquias na modernidade se sustentam ao combinar tradição, adaptação institucional e simbolismo nacional, mas também revela que tais elementos podem ser insuficientes quando a instituição se torna arcaica e deixa de corresponder às demandas sociais e políticas de seu tempo, revelando, desta forma, os limites da tradição frente à modernidade política.
Além disso, a falta de estabilidade política e crise econômica vivenciadas no país foram potencializadas pelas ferramentas digitais. A antiga rejeição às elites tradicionais, vistas como o símbolo da desigualdade social nepalês, foi restabelecida na Geração Z e fomentou o desejo de uma renovação democrática no país para, finalmente, romper com a tradição aristocrática.
Por fim, mesmo com um futuro incerto, a combinação das revoltas no Nepal e em países do Sul Global indicam a possível emergência de um novo ciclo de protestos contra o autoritarismo, corrupção e desigualdade apoiado no meio digital, similar à Primavera Árabe.










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