top of page

Etiópia: História, Resistência e Legado de uma Nação Soberana Departamento Histórico-Geográfico

  • carinewspuc
  • 24 de out. de 2025
  • 5 min de leitura

Departamento Histórico-Geográfico

Introdução (Por Ellen Araújo)

A República Democrática Federal da Etiópia localiza-se no nordeste do continente africano, cobrindo uma área territorial maior que Reino Unido, Alemanha e Itália juntos. Entre picos cobertos de neve e desertos inclementes, as “Terras Altas” – ou o Planalto Etíope – definem a maior parte do relevo. Apesar do país se situar na faixa tropical (próximo à linha do Equador), a altitude elevada cria um clima temperado e fresco, ademais de uma agricultura rica e diversificada. O Planalto Etíope também abriga o Nilo Azul e o Atbara, que suprem mais de 70% do volume d’água que chega ao Egito.



Soberania em Disputa (Por Ellen Araújo)

O Império Etíope já contava mais de seis séculos na ocasião da Conferência de Berlim (1884-1885), sediada em um Estado recém-unificado (Alemanha, 1871) com o propósito de “regrar” a expansão colonial na África. A Itália, igualmente recém-unificada (Risorgimento, 1870-1871), era tida como "a menor das Grandes Potências" no Concerto Europeu: a medida do poder de uma nação era seu império. Então, após avançar contra a Eritreia (ao norte) e ocupar a “Somalilândia Italiana” (a sudeste), faltava apenas um obstáculo para unificar a “Africa Orientale Italiana”: a Etiópia.

Contrastando com a fragmentação que facilitou a agressão em outros lugares, a Etiópia desfrutava de uma robusta coesão interna sob o Imperador Menelik II. Durante décadas, Menelik empreendeu um processo de consolidação do poder central, enquanto investia na modernização militar – habilmente adquirindo armas de diversos fornecedores europeus, rivais entre si. Mal desconfiava ele que Adwa se transformaria em um poderoso símbolo de resistência anticolonial e orgulho pan-africano.

O casus belli (causa de guerra) foi o Tratado de Wuchale (1889), mais especificamente o Artigo 17. A versão italiana afirmava que a Etiópia "consente em se valer" (consente di servirsi) do governo italiano para todas as relações externas – estabelecendo um protetorado. A versão em amárico, que Menelik assinou, usava a frase "pode, se assim desejar, valer-se de" (Yichalachewal) – preservando a soberania etíope. Após descobrir a discrepância, protestar veementemente e ver todas as suas tentativas de retificação frustradas, ele renuncia ao tratado – ato que a Itália usaria como pretexto para a guerra.

Face à iminente invasão, Menelik respondeu com uma mobilização imperial sem precedentes, demonstrando a eficácia de sua integração política. O exército era formado por cidadãos de todas as partes, sendo apoiado por uma vasta estrutura logística civil. A decisiva Batalha de Adwa ocorreu em 1º de março de 1896. Naquele domingo de São Jorge, o comando italiano deslocou cerca de 17.700 homens durante a noite – com mapas imprecisos, em terreno desconhecido e difícil, logo resultando em colunas perdidas e isoladas. 

Já as forças nativas, com aproximadamente 100.000 combatentes, exploraram essas fraquezas, utilizaram conhecimento local e táticas de cerco rápido (afena) contra as colunas inimigas. Até a Imperatriz Taytu Betul comandou tropas e artilharia pessoalmente. Procedeu-se à esmagadora vitória etíope, a queda do governo de Francesco Crispi e a assinatura do Tratado de Addis Abeba – que anulou o Tratado de Wuchale, e obrigou a Itália a reconhecer a independência "absoluta e sem reservas" do Império Etíope. 


Haile Selassie e o Desafio Etíope ao Fascismo Italiano (Por Heitor Rebouças)

Após a Primeira Guerra Ítalo-Etíope, a Etiópia seguiu sob o reinado de Menelik II, que modernizou cada vez mais o país, construindo um serviço postal e uma malha ferroviária, além de propor melhorias nos sistemas de saneamento básico e administrativo. Em 1913, o imperador morre e assume em seu lugar, Hailé Selassié, que continuou o processo de modernização e promoveu substancialmente a religião Rastafari no país, desenvolvida na Jamaica.

Entretanto, a primeira metade do século XX marcou a ascensão de diversos líderes  ultranacionalistas na Europa, que mudaria completamente a história da Etiópia. Encabeçado por Benito Mussolini, o mundo assistiu o surgimento do fascismo italiano em 1922, que via a derrota contra os etíopes como uma humilhação, já que eram considerados “povos primitivos” e “inferiores”. A partir de então, com um sentimento constante de vingança, os italianos tentaram conquistar a Etiópia de uma outra forma: ao invés de tentar dominar com o uso de soldados, Mussolini buscou corromper os líderes locais e tentou inflamar questões antigas entre etnias distintas, almejando fragmentar o país de dentro para fora.


Esse plano seguiu até 1934, em que o estopim foi atingido. Wal Wal era um oásis localizado próximo à fronteira com a Somália italiana, que já vinha sofrendo algumas incursões por parte do exército fascista. As tensões começaram a escalar extensivamente até que houve uma pequena batalha que era a oportunidade que a Itália queria para invadir o país novamente. Tudo isso culminou no início da Segunda Guerra Ítalo-Etíope (1935-1936), no qual os esforços não foram poupados por parte dos europeus. Neste conflito, foram usados blindados, aviões e até gás mostarda, que tinha sido proibido pelo Protocolo de Genebra de 1918. Dessa forma, em 1936, as tropas italianas chegaram em Adis Abeba, capital do Império, e a Itália declarou a anexação da Etiópia mesmo sem que a luta armada tivesse realmente acabado.

Nesse contexto, é imprescindível falar sobre a resistência etíope enquanto subjugada à Itália. Sendo o único país africano da Liga das Nações, Haile Selassie fez um discurso histórico alertando ao mundo sobre os perigos do fascismo e os riscos que ele poderia impactar a missão de alcançar a paz mundial, que foi completamente ignorada pelos outros membros. Além disso, vale destacar a função da Etiópia em lutar contra o Eixo no front africano, auxiliando os aliados na expulsão deles do continente. Assim, a Etiópia declarou sua libertação em 1944, dando início a uma era de descolonizações de norte a sul da África.



Etiópia: um Farol de Liberdade e Resistência (Por Alissa Guimarães e Luiza Chabaribery) 

A Etiópia, ao resistir à colonização, conseguiu proteger sua cultura e identidade, diferentes de muitos outros países da África que infelizmente tiveram parte considerável de suas tradições apagadas pelo colonialismo. A resistência etiope se tornou muito significante para o continente africano como um todo, juntamente da independência liberiana, foram fortes influências para o movimento pan-africanista, que buscava a unidade e a libertação de todos os povos africanos. Essa relevância é refletida na inspiração que sua bandeira nacional foi para outras, as cores presentes nela se tornaram a identidade do pan-africanismo, o verde como fertilidade da terra, o amarelo como paz e esperança, e o vermelho como fé, mas também como o sangue derramado em busca da liberdade.


Após a Segunda Guerra Mundial, a Etiópia obteve um grande prestígio internacional, como tornar-se um dos países fundadores da ONU (Organização das Nações Unidas), criada em 1945, tal qual deu uma excelente visibilidade de voz africana sobre discussões internacionais no quesito liberdade e soberania. O país do chifre africano, por mais que não muito comentado e discutido, obteve uma importância marcante na história tanto africana, quanto internacional, uma vez que abriu as portas para o renascimento político moderno africano, ou seja, o despertar político, cultural e social da África.

Em resumo breve, a Etiópia virou um grande símbolo da vitória, liberdade e soberania africana, isto tudo por conta do mantimento de sua cultura viva, o reconhecimento diplomático mundial e a inspiração de  movimentos de libertação em todo o continente. A sua longa história como forte nação guerreira foi essencial para um despertar de povos que haviam perdido suas raízes, mas que estavam determinados a reconquistar todas suas riquezas e identidades, aumentando a força do pan-africanismo.


 
 
 

Comentários


Em destaque

Receba notificações de novas notícias direto no seu e-mail! Cadastre-se

Email enviado!

bottom of page