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A caça às bruxas e o Halloween - A fogueira que continua a queimar

  • carinewspuc
  • 3 de nov. de 2025
  • 11 min de leitura




Departamento Socioambiental e dos Direitos Humanos

A palavra bruxa atravessa séculos carregando significados que vão do sagrado ao profano. O termo, hoje símbolo de resistência e sabedoria ancestral, nasceu em um tempo em que o desconhecido era visto como ameaça e o feminino, como algo a ser controlado.

De acordo com o Dicionário Etimológico (2025), “bruxa” vem do castelhano bruja e do galego-português medieval bruxa ou bruxa, já documentado no século XV. O termo designava mulheres associadas à feitiçaria, à cura e à sabedoria popular. Há quem veja na palavra uma origem celta — brusca, relacionada à magia e aos encantamentos — como aponta o site El Castellano (2025). Outras hipóteses, vindas do campo da linguística comparada, aproximam o vocábulo português do inglês witch, derivado do antigo termo germânico wicce, que se referia às mulheres sábias (Etymonline, 2025). Essas semelhanças mostram que, em diferentes línguas europeias, “bruxa” sempre esteve ligada ao conhecimento feminino e ao domínio do invisível. Mas o que começou como respeito à sabedoria se transformou em medo e perseguição.

O século XV é um marco na transição entre as práticas medievais e as perseguições modernas à bruxaria. Ainda que existissem acusações de feitiçaria desde a Baixa Idade Média, é nesse período que a bruxa se consolida como figura demonizada no imaginário cristão europeu. Essa transformação é fortemente influenciada pela publicação do Malleus Maleficarum em 1486/1487, tratado inquisitorial que sistematizou os procedimentos de identificação, julgamento e punição de bruxas (PIMENTEL, 2023). De acordo com Santos Portela (2017), o Malleus foi decisivo para associar a imagem da bruxa à heresia, ao pacto com o demônio e à corrupção moral. Essa associação estabeleceu uma nova base jurídica e teológica para as futuras “caças às bruxas”, intensificadas nos séculos seguintes. Nos textos eclesiásticos e jurídicos da época, o termo latino malefica (feminino de maleficus) era usado para designar mulheres que praticavam “malefícios” e feitiçarias. O próprio Malleus Maleficarum dedica capítulos inteiros às “mulheres que copulam com demônios” e aos “filhos gerados por íncubos e súcubos” (PIMENTEL, 2023). Essa terminologia latina coexistia com as formas vernáculas, bruxa, bruja, sorgina (no País Basco), usadas nas denúncias  populares. Enquanto o discurso teológico se estruturava em torno de maleficium, o povo continuava a empregar os termos locais, muitas vezes com base em tradições folclóricas ou curandeiras.

As investigações históricas indicam que a palavra bruxa era amplamente usada em contextos populares para acusar mulheres consideradas responsáveis por infortúnios, doenças ou encantamentos. O termo carregava tanto conotações de sabedoria popular (curandeira, conhecedora de ervas) quanto de ameaça social (feiticeira maligna). Assim, seu uso no século XV oscilava entre o campo mágico e o criminal, dependendo do contexto e da autoridade que o enuncia (SANTOS PORTELA, 2017). Com a consolidação do discurso inquisitorial, o termo bruxa passou a incorporar um valor moral negativo e a designar uma figura essencialmente ligada ao mal. O vocábulo, entretanto, manteve em certas regiões um duplo significado, tanto o de “feiticeira” quanto o de “mulher sábia” ou “curandeira” (DICIO, 2025). Ao longo dos séculos XVI e XVII, a carga pejorativa se intensificou, refletindo a misoginia institucionalizada nas práticas de perseguição (PIMENTEL, 2023). O estudo etimológico da palavra revela, portanto, não apenas uma história linguística, mas também uma trajetória social e simbólica marcada pela opressão de gênero. A palavra portuguesa bruxa apresenta uma origem incerta, mas altamente provável de derivar de um substrato pré-romano da Península Ibérica, o que a distingue das raízes latinas e germânicas encontradas em outras línguas europeias. No século XV, o termo coexistiu com o vocabulário teológico latino malefica/maleficium e começou a ser absorvido pelo discurso jurídico, culminando na construção da imagem demoníaca da bruxa nos séculos seguintes.

Mas o tempo transforma tudo, até as palavras queimadas pelas fogueiras. Hoje, “bruxa” é símbolo de força e resistência. Na cultura contemporânea, ela deixou de ser o retrato da heresia para se tornar emblema de autonomia feminina. Sua etimologia, antes marcada pelo medo, revela agora uma herança de sabedoria, espiritualidade e poder. 

O conceito de ‘bruxa’ e a celebração do Halloween (Dia das Bruxas) carregam em si séculos de história, misturando folclore, perseguição religiosa e a evolução cultural do Ocidente. Enquanto o Halloween remonta às festividades celtas do Samhain, que marcava o fim do verão e o início do ano novo - momento em que se acreditava que a fronteira entre o mundo dos vivos e dos mortos se dissolvia -, a figura da bruxa se tornou, em um período posterior, um foco de pânico e repressão. A perseguição às chamadas “bruxas” intensificou-se com o fortalecimento da Inquisição, instituição criada pela Igreja Católica no século XIII para combater heresias e consolidar a ortodoxia religiosa na Europa. 

Durante a Baixa Idade Média e a Idade Moderna, tribunais inquisitoriais espalharam-se pelo continente, promovendo julgamentos baseados em denúncias frágeis, confissões obtidas sob tortura e execuções públicas - práticas que evidenciam a ausência de qualquer noção de garantias jurídicas ou direitos individuais (Museu da Inquisição, s.d.). Esse cenário de repressão atravessou o Atlântico e encontrou eco nas colônias americanas, sendo o caso mais emblemático o dos Julgamentos das Bruxas de Salem, ocorridos em 1692, na Nova Inglaterra. Movidos pelo fanatismo religioso e por tensões sociais, esses julgamentos resultaram na morte de 19 pessoas e na prisão de dezenas de outras, revelando como o medo e a intolerância podiam ser institucionalizados (National Geographic, 2024; Britannica, s.d.).

Segundo a filósofa e historiadora Silvia Federici, a caça às bruxas não pode ser compreendida apenas como um fenômeno de histeria religiosa, mas como um processo político e econômico ligado à consolidação do capitalismo. Ao criminalizar mulheres independentes - muitas delas curandeiras, parteiras ou viúvas -, a sociedade da época buscava controlar o trabalho reprodutivo e impor um rígido domínio sobre o corpo feminino, essencial à manutenção da nova ordem econômica e patriarcal. Sob o pretexto de eliminar o “mal”, milhares de mulheres foram condenadas sem garantias jurídicas, em processos arbitrários marcados pela misoginia e pela violência institucional. Assim, mais do que um episódio histórico isolado, a caça às bruxas tornou-se uma metáfora poderosa para outras formas de perseguição política e social, nas quais o medo e a intolerância continuam a justificar a violação dos direitos humanos básicos.

O período da Caça às Bruxas representa, portanto, um dos momentos mais violentos e sombrios da história europeia, estendendo-se por cerca de quatro séculos, mas atingindo o seu auge entre 1560 e 1630, no início da Idade Moderna, com foco na Europa Central. Centenas de milhares de pessoas foram torturadas e executadas, sendo as mulheres as vítimas predominantes. Esse genocídio ocorreu em um contexto histórico de grandes transformações - como a Reforma e a Contra-Reforma, o desenvolvimento dos burgos e as descobertas científicas -, mas também de profunda crise, marcada por epidemias, guerras e fome. Nesse cenário de instabilidade, a perseguição serviu como uma forma de buscar bodes-expiatórios para explicar as desgraças e desviar a atenção da violência social.

A Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício então, foi originalmente estabelecida pela Igreja Católica no século XIII com o propósito de combater a heresia, que consistia em transgressões da fé cristã por indivíduos batizados. A bruxaria, nesse contexto, foi conceituada como o ato de renegar a fé católica e fazer um pacto com o Diabo para a prática do mal (maleficia) (Tomita, 2025). A crença no Sabá, que descrevia reuniões noturnas com o Diabo para rituais blasfemos, incluindo orgias e sacrifício de crianças, solidificou essa ideia no final do século XVI.

Para conduzir essa perseguição, foram desenvolvidos instrumentos e procedimentos cruéis. A Bula Super illius specula (1326), do Papa João XXII, foi fundamental ao assimilar a feitiçaria à heresia e habilitar os inquisidores. O Formicarius (1435-1437) foi a primeira obra demonológica a insistir na culpabilidade feminina. Contudo, o documento mais infame foi o Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras, 1486), que codificou os critérios para acusação e julgamento, desenvolvendo a ideia da feitiçaria como uma obsessão feminina (Tomita, 2025). Graças a bula papal, o procedimento inquisitório reforçou as características arbitrárias do Direito na época, permitindo então o uso da tortura como principal instrumento para a obtenção de confissões, culminando na execução pela fogueira. A tortura, sádica e perversa, tinha o poder de "criar" a bruxaria, forçando admissões através de procedimentos como o desnudamento e o exame do corpo feminino, exemplos claros do ódio e aversão às mulheres ao associar a repressão sexual feminina como “cura” para o mal diabólico, uma vez que estas eram vistas como parceiras do Diabo.

Esse ódio e aversão às mulheres, materializado no fenômeno da Caça às Bruxas não se limitou à Europa, ele atravessou o Atlântico e manifestou-se no continente americano de diversas maneiras, sendo o caso mais emblemático e violento, os Julgamentos das Bruxas de Salém, em Massachusetts, no século XVII. Esses julgamentos arbitrários ocorreram em meio à histeria em Salém, decorrente de um contexto de intensa rigidez puritana, tensões sociais, disputas econômicas e ameaças externas. A crise começou em fevereiro de 1692, quando duas jovens, Elizabeth Parris e Abigail Williams, começaram a sofrer de convulsões inexplicáveis. Um médico apontou a causa como sobrenatural, levando as meninas a nomearem as primeiras acusadas, incluindo a escrava Tituba. Nos meses seguintes, mais de 200 pessoas foram presas e acusadas. O processo foi marcado por acusações baseadas no "testemunho espectral" e culminou na execução de 20 indivíduos por enforcamento, além de outras mortes na prisão. O terror só cessou quando o governador de Massachusetts, William Phips, dissolveu o tribunal especial no final de 1692, pondo fim à histeria que atingia todas as classes sociais. Os Julgamentos de Salém são hoje um dos lembretes mais angustiantes do perigo do fanatismo e da histeria coletiva na história americana (Avila, 2022). 

A misoginia foi um fator determinante na caça às bruxas, que eram privadas de seus direitos por serem consideradas hereges, além de indignas de vida, não apenas pela igreja, mas pela sociedade. Havia um sentimento de ódio e  vontade de conter aqueles que tinham comportamentos considerados não católicos, que não seguiam os dogmas cristãos e eram entendidos como uma ameaça a hegemonia da igreja. Segundo os religiosos, isso teria que acabar. 

Vale ressaltar que não apenas as mulheres foram mortas, diversos homens também acabaram em fogueiras, porém por motivos divergentes. A chacina de pessoas por motivos exclusivamente religiosos não durou muito, pois logo se transformou em queimar todos aqueles que não seguiam a normatividade esperada. Nesse contexto, homens também passaram a ser alvos, mas principalmente por estarem envolvidos em revoluções, muitas vezes no campo científico. A parcela de homens queimados foi ínfima comparada à de mulheres queimadas, o que reforça o caráter da misoginia, para além de suas ações, o seu gênero as diferenciava. 

Os inquisidores acusavam mulheres de serem “bruxas” por diversos motivos, mulheres que pregavam outras religiões, como as de origem pagã, e principalmente as que se recusaram a ser cristãs. Não obstante, passou a ser utilizado o termo “magia” para designar rituais e práticas que eram excluídos da prática cristã normativa, e aquelas que faziam “magia” eram as bruxas, mulheres do “diabo”. Reputadas como demoníacas, trabalhavam ao lado do diabo, eram suas agentes, seu suposto objetivo era a dominação de Satã pelo mundo, sabiam usar sua beleza como arma de seduzir homens e eram sexualmente insaciáveis.  Prostitutas, velhas sábias, viúvas,  parteiras e médicas da sociedade antiga eram todas ditas como praticantes de bruxaria, mesmo não sendo um grupo homogêneo.

Muitas detinham saberes medicinais, sabiam quais as plantas eram necessárias para  ajudar na gravidez, quais utilizavam para curar doenças e fundamentalmente trabalhavam em prol de ajudar os membros de sua sociedade. Ainda que seus saberes fossem especiais e pioneiros da medicina, não eram cristãos. Apesar das tentativas, seus dons com ervas e estudos não foram extintos, foram passados de mães para filhas por décadas em todo o mundo, por conseguinte, se a mãe fosse acusada de bruxaria, logo não demoraria para a filha ser queimada também.

No período da Idade Média, sua independência não condizia com o padrão da mulher cristã, o que as tornaram “perigosas”, colocando em risco a normatividade da época. A superioridade feminina não é tolerável em um mundo patriarcal. 

A figura da mulher foi consolidada no Ocidente como incapacitada e distinta da figura do homem. Na Grécia Antiga, berço da cultura ocidental, o feminino era, biologicamente, inferior ao masculino. Entre seus estudos, o filósofo Aristóteles caracterizou que a mulher era um homem mutilado, no qual o pênis foi atrofiado no formato de útero e vagina; São Tomás de Aquino, por sua vez, caracterizou a mulher como naturalmente deficiente e falha. 

Nesse sentido, a inferiorização que começou na biologia física estendeu-se para o comportamento das mulheres. Pandora para os gregos e, posteriormente, Eva para os cristãos consolidaram o estigma quanto à natureza da conduta feminina: pecaminosa. 

O pecado que cerca as mulheres até a contemporaneidade serviu como plano de fundo para a perseguição, julgamento, prisões e até morte de mulheres durante o século XIII. As mulheres que viviam em grupos ou sozinhas, solteiras ou viúvas, eram alvo da Inquisição. A independência e autonomia delas expressavam ameaça à submissão de gênero da época e cabia a Igreja Católica controlar o corpo feminino para que este se encaixasse na sociedade patriarcal, capitalista e, principalmente, católica.  

Na atualidade, embora já não ocorram execuções sumárias desse tipo, o estigma social e cultural que paira sobre as mulheres permanece vivo, fazendo com que muitas ainda sejam submetidas aos mais diversos tipos de violência de gênero ao redor do mundo.

  Uma das mais nefastas manifestações dessa misoginia no mundo contemporâneo é a vitriolagem,  ou seja,  ataques com ácido. Em escala mundial, 80% das vítimas desse crime são mulheres, e 60% desses casos são perpetrados por parceiros românticos ou familiares, motivados principalmente por ciúmes, suspeita de infidelidade conjugal, inveja, rejeição de propostas de casamento ou disputas familiares. O uso de ácido como arma de ataque promove a mutilação e desfiguramento do rosto e corpo, o que gera, além das graves complicações físicas,  uma profunda camada de complicações psicológicas que advém principalmente do estigma social atrelado a essas sobreviventes. Em Bangladesh, país que apresenta maiores índices de ataques de vítimas dessa violência, existem clínicas especializadas exclusivamente no tratamento de casos dessa natureza. 

A prevalência desses crimes, atrelada às demais violências de gênero as quais mulheres de todo o mundo são sistematicamente submetidas,  como a mutilação genital feminina, uma violência que assola cerca de 200 milhões de mulheres e meninas no mundo segundo dados da ONU, meninas  essas que são submetidas a força à  mutilação ou até remoção  da parte externa de seus órgaos genitais, num esforço de torna-las “puras” e assim torná-las mais desejáveis para o casamento, ilustram que a sociedade moderna não se encontra tão ideologicamente distante daquela que promovia a caça às bruxas. A percepção das mulheres enquanto meros recipientes de desejos e expectativas masculinas, e consequentemente as punições brutais atribuídas àquelas que desafiam essa concepção demonstram o longo caminho que há de ser percorrido para que as mulheres se vejam enfim livres de perseguição.  

Longe da imagem estereotipada, a bruxa moderna na mídia e na cultura pop passou por uma transformação radical, emergindo como um símbolo multifacetado de poder, rebeldia feminina e autoconhecimento.

Assim como a tecnologia, a cultura corre nas veias da sociedade através das redes sociais, das quais desempenham um papel significativo de disseminação cultural e informativa, dentre elas, aplicativos como Instagram e Tiktok, que lideram o ranking, chegando em média de 2 bilhões de usuários ativos. De trends á hashtags, a bruxaria tem marcado presença na modernidade, principalmente entre os jovens. 

Nesse sentido, houve um ressignificado de imagem e associação das “bruxas”, abandonando o estereótipo do mal para abraçar o símbolo de autonomia feminina, intuição e rebeldia contra o patriarcado. 

A bruxa, em sua versão contemporânea, oferece à audiência uma figura que legitima o poder pessoal e a recusa em se conformar a expectativas sociais estreitas, abordando a natureza mais selvagem e intuitiva da mulher.

Por outro lado, o viés ancestral e  religioso, tem sido em grande parte representado pela cultura Wicca, popular dentre a mídia moderna e reconhecida pela valorização do uso de ervas,  ciclos lunares e a energia da Terra. Essa abordagem tira o foco do pacto diabólico e o coloca na conexão do ser com sua essência e poder criativo, elementos valorizados na bruxaria.

Em resumo, a presença da bruxa e o ressignificado dessa figura vem sendo amplamente presente no contexto midiático, deixando de lado o viés histórico estereotipado da mulher má e trazendo de volta o significado etimológico, bem como a resistência e sabedoria ancestral, através da disseminação de informações e conhecimento, voltando ao viés da cura e à sabedoria popular.


 
 
 

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