“DtMF” e Lo que le pasó a Hawaii: Bad Bunny entre o amor por Porto Rico e as dores da diáspora
- Bruna Brandão, Layla Capato
- 28 de mai. de 2025
- 6 min de leitura
Benito Antonio Martínez Ocasio, conhecido como Bad Bunny, é um cantor, compositor e ator porto-riquenho de 31 anos que se tornou mundialmente reconhecido, sendo vencedor de três Grammys. Ao contrário de outros artistas, os quais mudaram o idioma de suas canções para o inglês a fim de aumentar a base de fãs, Bad Bunny fez sucesso escrevendo e cantando em espanhol. Seu álbum de 2020, El Último Tour del Mundo, se tornou o primeiro álbum totalmente em espanhol a estrear em primeiro lugar na Billboard 200. Ele repetiu o feito com seu quarto álbum de estúdio, Un Verano Sin Ti, que também se tornou o primeiro álbum em espanhol a receber uma indicação ao Grammy de Álbum do Ano.
Em 5 de janeiro de 2025, Bad Bunny lançou seu novo álbum “Debí Tirar Más Fotos”, no qual o artista celebra as suas raízes porto-riquenhas ao trazer elementos da cultura e história locais, a fim de exaltar a luta pela preservação da identidade nacional, além de fazer críticas à exploração da ilha. Com 17 faixas, o disco inteiro marcou presença na Billboard Hot 100, um dos mais renomados rankings musicais do mundo. A faixa-título “DtMF” (abreviação de “Debí Tirar Más Fotos”) viralizou no TikTok e se tornou a mais ouvida do mundo no Spotify, em 12/01/2025.
O álbum também inclui a faixa “Lo que le pasó a Hawaii”, que, assim como todo o álbum, discute inúmeras questões sociais, culturais e políticas relevantes — especialmente o status de Porto Rico como território não incorporado dos Estados Unidos. O refrão da música, traduzido para o português, diz: “Não, não solte a bandeira nem esqueça o lelolai / Porque não quero que façam com você o que aconteceu com o Havaí”. Nesse sentido, a comparação entre as duas ilhas se deve ao fato de que ambas são arquipélagos tropicais que sofreram um processo semelhante de colonização e desapropriação, além dos impactos da gentrificação e do turismo em massa. Ademais, o verso “Querem tirar meu rio e também minha praia” revela o processo de apropriação dos recursos naturais de Porto Rico, algo que também ocorreu no Havaí. Sendo assim, a luta contra a perda territorial e cultural é central na música, simbolizando a resistência do povo local contra as forças externas.

Bad Bunny utiliza suas letras para criticar abertamente a colonização moderna, ressaltando como o território porto-riquenho sofre com uma espécie de “neoimperialismo”, marcado pela influência econômica, cultural e política dos EUA. Em “Lo que le pasó a Hawaii”, o cantor aborda também a chamada “gringaficação”, termo usado para descrever o intenso processo de transformação da ilha provocado pelo turismo massivo e pela chegada de estrangeiros, que contribuem para o aumento do custo de vida e a exclusão da população local. A canção
A faixa mistura memórias pessoais e sentimentos de desapego, ao mesmo tempo em que faz críticas à superficialidade das relações impulsionadas por esse modelo de consumo e exploração. Nesse sentido, a música funciona como uma metáfora do que acontece em Porto Rico: um paraíso natural sendo explorado comercialmente, ao mesmo tempo em que sua população luta para preservar sua identidade e soberania. Com essa canção, Benito reafirma seu papel como voz crítica da juventude latino-americana, usando sua arte para visibilizar as tensões coloniais ainda presentes na realidade porto-riquenha.
O fundador da página Reggaeton Brasil, Dermeval Neves, afirmou: “O álbum traz várias mensagens importantes, principalmente sobre a política de Porto Rico, mas a mais marcante é algo um pouco mais simples, que é saber desfrutar dos momentos com a família e os amigos. Trata-se de se reconectar com nossas raízes e origens, sem nunca esquecer quem somos e de onde viemos”. Na faixa-título “DtMF”, Bad Bunny fala sobre valorizar o tempo com a família, amigos e as pessoas que amamos, além de ressaltar a importância de registrar esses momentos. No refrão, o artista canta “Eu deveria ter tirado mais fotos de quando te tinha / Eu deveria ter te dado mais beijos e abraços quando pude / Ei, tomara que minha galera nunca mude”.
Além de ser um fenômeno musical global, Bad Bunny tem se destacado como um agente cultural e político, ressignificando o papel do artista latino em uma indústria tradicionalmente dominada por padrões anglófonos e norte-americanos. Seu compromisso com o idioma espanhol e sua constante valorização da identidade porto-riquenha não são apenas escolhas estilísticas, mas também posicionamentos políticos deliberados. Ao manter sua produção inteiramente em espanhol — mesmo no auge de sua popularidade internacional —, Benito desafia o paradigma assimilacionista que historicamente levou artistas latinos a abandonarem sua língua materna em busca de maior visibilidade.
Essa postura também se insere em uma tradição de resistência cultural da América Latina, em que a arte é utilizada como instrumento de denúncia e valorização da memória coletiva. Em entrevistas recentes, Bad Bunny afirmou que seu objetivo é “contar a história de Porto Rico para o mundo” e que se recusa a “limpar” sua arte para agradar ao mercado estrangeiro (The New York Times, 2023).
O álbum Debí Tirar Más Fotos pode ser compreendido como um manifesto emocional e político. A presença da faixa “Lo que le pasó a Hawaii” evidencia o uso de analogias históricas para denunciar o risco da perda de soberania cultural e territorial. A referência ao Havaí, que foi transformado em estado dos EUA às custas de um golpe contra sua monarquia nativa, funciona como advertência sobre os impactos do imperialismo disfarçado de desenvolvimento.
De acordo com a socióloga e pesquisadora Yarimar Bonilla, professora da Universidade de Princeton, o caso de Porto Rico representa um exemplo contemporâneo de “colonialismo invisível”, em que a dominação persiste mesmo após o fim oficial das estruturas coloniais tradicionais (Bonilla, Non-Sovereign Futures, 2015). A ideia de “gringaficação”, explorada por Bad Bunny, se conecta a essa análise ao mostrar como a gentrificação cultural e econômica pode servir como ferramenta de controle social e apagamento identitário.
Além da crítica política, o álbum também é profundamente pessoal. A faixa-título “DtMF” evoca um sentimento universal de nostalgia e valorização das conexões humanas em tempos de hiperindividualismo e cultura descartável. Essa justaposição entre o íntimo e o coletivo é uma das marcas mais potentes do trabalho de Bad Bunny: ele transforma experiências pessoais em reflexões sociopolíticas que dialogam com uma geração inteira.
A recepção crítica da obra também reforça sua relevância. Segundo a Rolling Stone (2025), Debí Tirar Más Fotos é “o álbum mais maduro e consciente da carreira de Bad Bunny”, e representa um marco na música latina, ao unir sonoridades tradicionais caribenhas com elementos de trap, reggaeton e até balada romântica, sem perder sua coerência artística. A escolha de manter Porto Rico como centro narrativo de sua arte torna Benito Antonio Martínez Ocasio uma das vozes mais significativas da juventude latino-americana. Ele representa não apenas um sucesso comercial, mas uma força cultural transformadora que contribui para o fortalecimento de identidades plurais dentro de uma indústria globalizada. Ao fazer isso, Bad Bunny se posiciona como herdeiro contemporâneo de uma longa linhagem de artistas engajados que utilizam a música como forma de resistência e afirmação.
REFERÊNCIAS
BAD BUNNY: Biography. Biography, [s.d.]. Disponível em: https://www.biography.com/musicians/bad-bunny. Acesso em: 29 abr. 2025.
BILLBOARD. Bad Bunny makes history again with ‘Debí Tirar Más Fotos’. Billboard, 2025. Disponível em: https://www.billboard.com. Acesso em: 29 abr. 2025.
BILLBOARD BRASIL. Bad Bunny: qual o significado de DtMF, a trend do astro do reggaeton. Billboard Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://billboard.com.br/bad-bunny-qual-o-significado-de-dtmf-a-trend-do-astro-do-reggaeton/. Acesso em: 29 abr. 2025.
BONILLA, Yarimar. Non-sovereign futures: French Caribbean politics in the wake of disenchantment. Chicago: University of Chicago Press, 2015.
EL PAÍS. Lo que le pasó a Hawaii: el significado detrás de la canción de protesta de Bad Bunny. El País, 10 jan. 2025. Disponível em: https://elpais.com/us/entretenimiento/2025-01-10/lo-que-le-paso-a-hawaii-el-significado-detras-de-la-cancion-de-protesta-de-bad-bunny.html?outputType=amp. Acesso em: 29 abr. 2025.
METRÓPOLES. Sucesso: Bad Bunny. Metrópoles, [s.d.]. Disponível em: https://www.metropoles.com/entretenimento/musica/sucesso-bad-bunny. Acesso em: 29 abr. 2025.
MIRANDA, Héctor. Imagem de duas pessoas com bandeira de Porto Rico e faixa com citação de Bad Bunny. [fotografia]. [S.l.]: Instagram, 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/p/C2mTMi1LriH/. Acesso em: 28 maio 2025.
NEVES, Dermeval. Entrevista concedida ao portal Reggaeton Brasil. 2025. Disponível em: https://reggaetonbrasil.com.br. Acesso em: 29 abr. 2025.
ROLLING STONE. Bad Bunny’s most powerful album yet. Rolling Stone, 2025. Disponível em: https://www.rollingstone.com. Acesso em: 29 abr. 2025.
SPOTIFY CHARTS. Top Global Songs – Week of January 12, 2025. Spotify Charts, 2025. Disponível em: https://charts.spotify.com. Acesso em: 29 abr. 2025.
THE NEW YORK TIMES. Bad Bunny doesn’t want to be your escape. The New York Times, 2023. Disponível em: https://www.nytimes.com. Acesso em: 29 abr. 2025.









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